
Quando eu era pequenina tinha um Pai… o meu Papá.
Eu adorava o meu Papá. Quando ele chegava a casa atirava-me ao pescoço dele e cobria-o de beijos, depois sentava-me ao seu colo, contava-lhe o meu dia e o que tinha aprendido no colégio.
Trazia-me bonecas de todos os cantos do mundo e no Natal a sala ficava repleta de presentes. Mas também me ensinou que nem todos tinham a nossa sorte e que era preciso ajudar, dividir e respeitar.
Não poderia ter tido melhor Pai. Ensinou-me muito, deu-me muito, muito amor e muito carinho, protegendo-me sempre e educando-me também com alguma severidade porque as crianças precisam de disciplina.
Quando eu tinha oito anos, na madrugada de 15 de Setembro de 1964, um louco de estrada tirou-lhe a vida…
Dele ficaram muitas e lindas recordações mas estas são as que mais amo… quando me levava ao colégio, a nadarmos fora de pé na Praia da Rocha, vê-lo a galope com o Gaiato e a ensinar-me a montar a Estrelita .. aqui… nos nossos Verões passados no Al-gharb.
Desde essa madrugada eu tenho um Anjo que me protege e a quem agradeço por tudo o que sou.
Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se de uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
De que uns e outros olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.
Ela viu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.
Luís Vaz de Camões