Oh yeah, alright,
Are you gonna be in my dreams tonight?
And in the end the love you take
Is equal to the love you make
The End, The Beatles
(Is it? I wonder...)
Pai Natal,
Senta-te aí que a conversa vai ser longa, ou melhor, os pedidos vão ser longos. Ando muito aborrecida contigo mas podes melhorar as nossas relações se me deres o que te peço. E para que possas ir encontrando tudo já te estou a escrever com tanta antecedência porque depois os miúdos desatam a pedinchar, podes não ter tempo para mim, e há certas coisas que eu gosto de planear com grande avanço.
Bem, eu quero coisas muito simples. Primeiro quero um carro novo, aliás… dois carritos, um para a cidade e outro para ir para a praia. Um RR branco que pode ser sem bar, TV e piscina porque não uso nada dessas coisas. O outro é um Porsche Cayenne azul escuro, com GPS. Como vês são dois rodinhas acessíveis e fáceis de encontrar, mas se me quiseres dar um bónus podes juntar uma Audi TDI all road também azul escura. Não me apareças é com carros vermelhos que já sabes que eu embirro solenemente com essa cor, sabes muito bem que sou verde. E onde é que os arranjas? Não é nada na Praça de Espanha, tens cada uma, pá! Vai mas é à Feira do Relógio ou à Feira da Ladra que são muito mais em conta.
Continuando…
Também quero uma Penthouse em Nova Iorque. Onde? Mas onde é que havia de ser? Em Manhatten, é claro! Ou tu achas que eu tenho cara de New Jersey? Ah, e na 5ª Avenida que é mais central, se calhar até é lá que está a Trump Tower, pode ser mesmo aí. Se o Donald viver no topo, que deve ser o caso, desaloja-o e muda-o para outro andar, e ele que fique de bico calado que já é uma grande honra ter uma vizinha como eu (mesmo quando eu cantar as músicas do Zé Cabra, da Ana Malhoa, ou do Quim Barreiros). E que nem te passe pela ideia mobilá-lo com móveis do IKEA ou da Moviflor, vê lá bem o que me arranjas! Telefona à Oprah e pede-lhe para te emprestar o Nate, esse sim, esse é que é um génio da decoração, além de ser uma brasa de cair para o lado! Pena é jogar na equipa contrária, mas enfim, não se pode ter tudo.
Arranja-me também uma casa em Los Angeles, sempre com o Nate como é óbvio, para eu receber a família e os amigos e irmos todos à entrega dos Óscares fazer inveja ao pessoal. Olha, um Cadillac, daqueles bem grandes e bem americanos também está na ordem do dia, anota aí. Vê lá a cor, toma atenção, já te estou a avisar novamente, aparece-me cá com alguma máquina cor de tomate e ficas a cantar com voz de falsete com as crianças do coro de Santo Amaro de Oeiras.
Bem, deixa cá ver mais coisas…
Ah, realmente também preciso de um Action Man igualzinho ao Clooney, mas olha que tem de ser rigorosamente igual que é para eu pôr a tiracolo e não fazer má figura. Tem de saber fazer todas as tarefas da casa, fazer-me todas as vontades, e pede para lhe meterem um botão on/off que é para eu ligar e desligar sempre que me apetecer. Se o raio do boneco se põe a incomodar-me por causa de eu estar até às tantas na sala de chat ainda temos o caldo entornado. Ele tem de ser o homem perfeito, aquele que não existe em carne e osso, e vê lá se fazes a coisa bem feitinha porque quando me chega a mostarda ao nariz lanço mísseis a torto e a direito, ainda apanhas um que eu estou-te cá com uma sede que nem calculas! Está bem, está bem, eu vou ver se te perdoo as asneiras, pode ser que acalme.
Como gosto muito de viajar quero um Jet todo metalizado e só com tripulação masculina, nada de mulheres que para isso já basto eu e já nem tenho pachorra pra me aturar. Tens é de me mandar fotos para eu os escolher a dedo e têm de ser todos uma simpatia porque eu não gosto de gente mal encarada, só quero gente gira!
O mesmo tem de acontecer com o iate, ou melhor, o yacht, assim fica mais chique, quero uma tripulação de farda branca e escolhidinhos a dedo pela je. Não precisa de ser muito grande, tem é de ser confortável, mas nada de fazer compras em segunda mão, compra-o nos USA que eles gostam de coisas à maneira. Ah! E não te esqueças que todas as máquinas têm de ter a matrícula “Miss Kakau”, já sabes que Kakau só há uma… eu e mais nenhuma. Quem é que disse? Eu, ora quem havia de ser! Tou-me nas tintas se há resmas, baldes, delas no Brasil! Ok, ok, são todas boazonas, pois são, mas lembra-te que têm silicone por todo o lado, assim também eu, vai lá vai, se eu tirasse daqui, pusesse ali, ias ver como eu ficava toda giraça, oh oh! E isto já me deu outra ideia, mas já te digo.
É verdade, já me ia esquecendo, e que tal uma bicicleta da Barbie, toda cor-de-rosa e com um cestinho à frente? É para eu fingir que sou francesa e que vou comprar a baguette na bici, mesmo um must, não achas?
Ora bem…mais…
Arranja-me também cinquenta e um por cento das acções da Maison Chanel e da Estée Lauder, assim fico logo com o dois em um, vestida, calçada, com adereços a condizer, lingerie, tratamento para a pele e para o cabelo. Consulta o Dow Jones e o Nasdaq para ver a melhor altura, eu é que não percebo nada disso mas tu deves saber, já deves ter os cursos todos, problema teu. Como dizem os brasileiros… eu não posso cansar a minha beleza com essas coisas.
Olha lá pá, não te ponhas a bocejar que ainda não acabei, hoje é a Part I, depois há mais, mas por agora anota aí só mais uma coisita… marca-me uma plástica com o Pitanguy ou então com aquele cirurgião do Porto, tem fama de ser excelente e eu só quero dar uns retoques aqui e ali. Mas olha que prefiro o Pitanguy, já o conheço de ginjeira ali do Pingo Doce, encontro-o lá muitas vezes a comprar melões de Santarém, nunca tive foi a lata de lhe falar, nem sabes o melão com que eu fiquei! Mas é para isso que serves, para cumprir os nossos caprichos.
Como vês só te pedi coisas básicas e super fáceis de arranjar. Despacha-te lá com isso que eu vou pensar em mais coisitas, talvez mais umas vinte, não sei, depende da telha. E não me venhas com as tretas de que estão esgotadas, que são muito caras, muito pesadas, etc. e tal. Pede um empréstimo ao Bes, ao CityBank, whatever, e já agora pede também um PPR que assim fico mais descansada. Bem sei que tenho um lar de terceira idade aqui perto mas é sempre bom prevenir.
Ah, e não vale a pena tentares entrar pela chaminé porque eu tenho exaustor, vem buscar-me com as renas e levas-me logo para NY para eu passar lá o revéillon. E uma coisa importante, quero champanhe francês, o Dom Pérignon, que é o meu preferido, mas também podes arranjar umas caixas de Cristal que é o champanhe americano que o Frederico bebe e diz que é o mais caro de todos, já agora experimento. Olha, e já agora mete o Frederico na lista porque de repente me deram aqui umas vontades, mas ele que venha com a farda de marujo, toda branquinha, aquela, pois, essa mesmo que me dá uns calores do caraças.
Pronto, está tudo, se bem que me lembrei que umas unhas de gel também vinham a calhar, marca aí na Estée. Tou farta de partir as minhas nas limpezas, mas que vida esta de gata borralheira! E gata velha, ainda por cima!
Vá, vá, adiante que se faz tarde, vai lá então e não percas a agenda, fico à tua espera para a Part II, vamos lá ver se é desta que me livro da loja dos chineses, safa, já ando de olhos em bico!
Olha, e não bebas enquanto conduzes e não excedas o limite de velocidade ou partes os… bem… aquelas coisas das renas, ou os teus, se te confiscam a carta eu é que fico a ver navios. Depois não te queixes se me ponho a jogar à batalha naval!
Porta-te bem que eu encarrego-me de me portar mal.
Não te esqueças de me manter ao corrente das diligências ou vou a tua casa e parto-te o estaminé de uma ponta à outra.
.*.*.K.*.*.
(Bahhhh!)
É um tratado acerca do... Papel Higiénico.
Ora bem, até poderão sorrir com uma questão tão simples como o papel higiénico mas a verdade é que é um verdadeiro problema quando falta!
A filosofia do rolo de papel higiénico é mais complexa do que se possa imaginar. E dado que nada se pode limpar à parede há que recorrer aos substitutos. Mas o PI tem um posto difícil de ocupar porque aquele suave desenrolar, de várias cores e desenhos, perfumado ou não, é único e exclusivo, não há quem o suplante.
E depois é tão prático que depois de usado… lá vai ele por água abaixo, além de ser discreto, um verdadeiro túmulo! Alguma vez o ouviram revelar o que vê? Não, dali não se arranca nada, sempre fiel e caladinho que nem um rato!
E esta questão foi largamente debatida no século passado. Estou aqui a lembrar-me de “Alguém” que um dia, às 8 e meia da matina e no meio de grandes questões existenciais, sussurrou nas nossas costas a seguinte frase:
“Papel Higiénico Miraflores… O Tal Que Não Risca O Que Limpa!”
Enfim, foi o descambar da compostura e as filosofias “Kantianas” e “Hegelianas” baralharam-se com a Filosofia do PI, com gargalhadas abafadas e lágrimas à mistura e no entanto tão perceptíveis que a razão de tal explosão teve de ser revelada por ordem da mestra.
Fui de imediato indagada, por razões óbvias, e embora a minha vontade fosse de dizer “não confirmo nem desminto e só falo na presença do meu advogado” lá tive de cumprir a ordem, dividindo com os restantes mortais.
Moral da história: gargalhada geral!
Depois houve uma advertência para “Alguém”: “ O menino faz favor de deixar as meninas sossegadas, prestar atenção, e sobretudo deixar a Mlle Maria quietinha”, com um sorriso cúmplice e benevolente.
Felizmente sempre houve gente com sentido de humor porque senão isto era cá um enjoo! Oh oh !
Tinha cinco anos e meio quando tive uma das melhores experiências da minha vida.
O meu Pai levou-nos ao colégio, à minha irmã e a mim, naquele início de Outubro. Quando saí do carro fiquei extasiada ao ver a imensidão daquele edifício tão alegre, tão bonito e tão cheio de árvores, foi mesmo amor à primeira vista!
Eu não entendia nada do que a professora me dizia, apenas lhe sorria deliciada pela novidade da língua, deliciada pela sala de aula enorme e luminosa, pelas carteirinhas minúsculas, pelo recreio, enfim, por tudo.
Um ano depois já eu falava francês pelos cotovelos, esponjas que são as crianças e tudo aprendem à velocidade da luz. Ganhei muitos prémios e recordo com ternura o fecho do ano lectivo com toda a solenidade no ginásio e mais tarde no São Luís.
Foram treze anos maravilhosos e nunca houve um dia em que pudesse dizer que estava farta porque ali tudo me encantava. Lembro-me de tantas amigas, de tantos amigos, de tantas peripécias divertidas!
Adorava as aulas de ballet, de canto, de culinária, de francês, inglês e alemão, mas franzia o nariz aos Lavores e a certas modalidades da ginástica, uma delas era subir à corda. Dava-me cada ataque de riso que subia dois ou três nós e ficava-me por ali. Em contrapartida era sempre a segunda da turma no salto em comprimento, isto porque a João tinha pernas de Bugs Bunny e passava-me justamente… a perna, eheheh!
Depois dos anos da adolescência chegou a altura de pensar na carreira. Aos dezasseis anos estava decidida, seria Direito (depois mudei para Germânicas). Só que a minha vida teve um acontecimento inesperado porque o Fefas passou a fazer parte da minha turma, também ele queria ser advogado e assim lá se juntou ao pequeno bando de Letras em que as meninas predominavam e os meninos estavam em minoria.
Tivemos aulas que eram um verdadeiro papelinho, sobretudo as de Latim em que o Fefas, o Zé M, o Zé F, e o Alvarinho se divertiam a atirar bolas de papel para mim, para a Ana e para a Inô. Eles faziam questão de se sentarem nas últimas carteiras e nós levávamos com os “projécteis” na tola. O azar dos azares é que um dia uma das bolinhas foi mal calculada e parecia um meteorito a aterrar na mesa da professora. Resultado, mudámos para a cave do edifício central com carteiras numa só fila e lá se foram as infantilidades dos meninos que nos fizeram ouvir das boas. Eu cá perdia-me a rir, mas também comi por tabela, claro, noblesse oblige!
Qual foi a chave de ouro do ano lectivo de 72-73, o meu namoro com o Fefas, claro! E atingiu proporções que nenhum de nós poderia imaginar. Contrariámos, embora involuntariamente, a rígida disciplina establecida ao ser o primeiro casalinho a se atrever a andar de mãos dadas dentro do colégio.
Não te envergonhes se, às vezes, os animais estiverem mais próximos de ti do que as pessoas. Eles também são teus irmãos.
São Francisco de Assis
Os animais foram criados pela mesma mão caridosa de Deus que nos criou. É nosso dever protegê-los e promover o seu bem-estar.
Madre Teresa de Calcutá
Conselho útil:
"Nunca desistas de um sonho,
Se não houver numa pastelaria...
Vai a outra."
(autor desconhecido)